
(CENA 1: TERRENO DA FAMÍLIA – DIA)
(A tensão no ar é palpável após o final abrupto da cena anterior. Alice mantém a postura, encarando Gael, que parece surpreso com a audácia da irmã.)
ALICE (Voz firme) Você acha mesmo que o tempo da mordaça ainda existe, Gael? Pois saiba que a corda estourou.
GAEL (Rindo com desdém) Você não sabe nada do que fala. O mundo aqui fora não é como você imagina. Eu só estou te protegendo!
ALICE Proteção? Isso tem outro nome. É medo. Você morre de medo que a verdade sobre o que aconteceu nesta casa finalmente venha à tona.
(Dona Luzia, sentada ao lado do balde, começa a murmurar algo ininteligível, olhando para o vazio.)
DONA LUZIA O barro não esconde o que a alma não esquece…
GAEL (Ignorando a avó, irritado) Chega, Alice! Não vamos discutir isso aqui fora. Entra agora.
ALICE Não. Hoje não. Hoje você vai ouvir o que eu tenho a dizer. E Seu Jorge também, que está ali atrás, fingindo que não entende o que estamos falando.
(Seu Jorge sai de trás da casa, limpando as mãos em um pano velho. Ele encara Alice com um misto de raiva e tristeza.)
SEU JORGE Você está passando do limite, menina. A casa é minha. As regras são minhas.
ALICE (Caminhando até ele) A casa é do seu silêncio, pai. E eu não aguento mais viver nesse cemitério de segredos.
(CENA 2: INTERIOR DA CASA – MINUTOS DEPOIS)
(O ambiente é simples, rústico. A poeira dança na luz que entra pela janela. O clima é opressor.)
GAEL (Fechando a porta atrás deles) Pronto. Agora que estamos aqui dentro, diga logo o que você tanto quer, mas cuidado com as palavras.
ALICE (Olhando para as fotos na parede) Por que a foto da minha mãe foi escondida no porão? Por que ninguém nunca me disse a verdade sobre o que aconteceu no dia em que ela “foi embora”?
(Seu Jorge desvia o olhar. O silêncio que se segue é mais pesado do que qualquer grito.)
SEU JORGE Algumas perguntas não têm resposta, Alice.

ALICE Ou você não quer que elas tenham! Dona Luzia sabe, não sabe? Ela fala sozinha porque o peso do que ela viu está esmagando a mente dela.
GAEL (Segurando o braço de Alice com força) Cala a boca! Você não sabe do que está falando.
ALICE (Puxando o braço, com raiva) Não encosta em mim! Eu sei de muito mais do que você imagina. Eu achei as cartas, Gael. As cartas que você tentou queimar, mas não conseguiu.
(O rosto de Gael empalidece. Seu Jorge trava a mandíbula.)
ALICE (Continuando) Minha mãe não fugiu. Ela foi expulsa. E vocês dois foram cúmplices.
SEU JORGE (Com a voz embargada) Você não sabe o que ela fez…
ALICE O que ela fez importa menos do que o que vocês fizeram. Vocês destruíram uma família em nome de um orgulho que só trouxe solidão.
(Dona Luzia entra na sala, apoiada em uma bengala. Ela para diante do filho e do neto.)
DONA LUZIA (Com lucidez repentina) A mentira é uma planta que não dá fruto, Jorge. Você regou essa planta por vinte anos. Está na hora de deixar ela morrer.
(CENA 3: O CLÍMAX)
(Alice se aproxima de um pequeno baú de madeira no canto da sala.)
ALICE Vou abrir esse baú. Se vocês quiserem me impedir, terão que ser homens de verdade e me dizer, cara a cara, por que fizeram o que fizeram.
GAEL Alice, não…
ALICE (Com as mãos na tampa do baú) É hoje, Gael. O segredo acaba aqui.

(Alice levanta a tampa. Seu Jorge desaba em uma cadeira, derrotado pelo peso do próprio passado. Ouve-se apenas a respiração pesada dos quatro presentes.)
