
(CENA 1: INTERIOR DO HOTEL – SAGUÃO – DIA)
O som do “clique” dos celulares continua, incessante. O rapaz (MARCOS) está encolhido, tossindo devido ao spray, enquanto o segurança se aproxima. A recepcionista, visivelmente nervosa, tenta manter o controle da situação.
MARCOS: (Ofegante, limpando o rosto) Eu não fiz nada de errado! Eu só vim entregar um documento importante para um hóspede! Que tipo de hotel é esse que trata as pessoas assim?
RECEPCIONISTA: Você não tem agendamento! E não está vestido como um hóspede! A regra é clara, pessoas como você não entram aqui para circular livremente.
MARCOS: (Levantando-se, com indignação) “Pessoas como eu”? O que você quer dizer com isso? Você está me discriminando pela minha aparência ou pela minha cor?
O saguão fica em silêncio absoluto. A multidão, que antes filmava curiosa, começa a murmurar entre si, baixando os telefones.
(CENA 2: INTERIOR DO HOTEL – ÁREA DOS ELEVADORES)
Um homem de terno, o gerente geral (RICARDO), desce das escadas e se aproxima. Ele percebe a tensão e o grupo de hóspedes filmando tudo.
RICARDO: O que está acontecendo aqui? Algum problema com a segurança?
RECEPCIONISTA: Senhor, este indivíduo insistiu em subir sem identificação. Eu tive que tomar medidas preventivas.
MARCOS: (Apontando para a recepcionista) Ela me chamou de intruso e usou um spray em mim sem que eu tivesse feito qualquer ameaça! Eu sou um prestador de serviços, tenho o número do quarto do cliente que me espera!
(CENA 3: INTERIOR DO HOTEL – LOBBY – MOMENTO DE TENSÃO)
Ricardo olha para o segurança, depois para Marcos, e finalmente para a multidão.

RICARDO: (Para a recepcionista, sussurrando) Você sabe que hoje temos representantes de uma grande rede internacional hospedados aqui, certo? Você tem noção do escândalo que causou?
RECEPCIONISTA: (Sussurrando de volta) Senhor, eu estava apenas seguindo o protocolo de segurança.
RICARDO: (Vira-se para Marcos, tentando adotar um tom conciliador, mas ainda arrogante) Olha aqui, rapaz. Podemos resolver isso de forma discreta. Vamos para a sala administrativa.
MARCOS: Não, senhor! Eu não vou para sala nenhuma com vocês! Eu quero que todos saibam o que aconteceu. Eu vim aqui honestamente trabalhar, e fui humilhado publicamente. Eu quero a polícia aqui agora.
(CENA 4: EXTERIOR DO HOTEL – POUCO DEPOIS)
Uma viatura da polícia chega. As luzes azuis e vermelhas refletem nas vidraças do hotel. Os hóspedes começam a se aglomerar na porta, acompanhando tudo.
POLICIAL: (Saindo da viatura) O que está acontecendo aqui? Quem chamou a polícia?
MARCOS: Eu! Fui vítima de agressão e discriminação por parte dos funcionários deste hotel!
RECEPCIONISTA: (Interrompendo) Isso é mentira! Ele estava sendo agressivo!
MARCOS: (Mostrando o telefone, onde gravou toda a interação) Eu gravei tudo. Desde o momento em que ela me abordou. A verdade está registrada.
(CENA 5: INTERIOR DA SALA ADMINISTRATIVA – MAIS TARDE)
Ricardo está sentado à sua mesa, com o rosto pálido. Ele observa a gravação que o policial está assistindo no celular de Marcos.
RICARDO: (Para a recepcionista) Você nos destruiu. Sabe o que vai acontecer quando esse vídeo for parar nas redes sociais e na imprensa?
RECEPCIONISTA: (Chorando, percebendo a gravidade) Eu… eu não pensei que seria assim.
MARCOS: (Entrando na sala com o policial) O problema, senhor Ricardo, não é o que vocês pensam sobre mim. O problema é que, no século XXI, ainda existem lugares que operam como se a dignidade humana fosse negociável. Mas a partir de hoje, isso muda.
RICARDO: O que você quer? Dinheiro? Podemos fazer um acordo.

MARCOS: Eu não quero seu dinheiro. Eu quero que o mundo saiba quem vocês são. E quero que vocês respondam por cada ato de discriminação que praticaram hoje.
