
ATO I: O EMBATE NO METRÔ
(A cena é caótica. O metrô chega à estação. Pessoas olham curiosas para a discussão entre Tiago e Seu José.)
SEU JOSÉ (Segurando o colarinho de Tiago, voz trêmula de raiva) Você acha que esse terno te faz melhor que o seu pai? Você é feito do mesmo barro que eu, Tiago!
TIAGO (Empurrando as mãos do pai, ajeitando o terno) Esse barro nunca saiu da sua pele, pai! Olhe ao seu redor! Estamos em São Paulo, o mundo evoluiu e você ainda quer que eu viva como um peão de terra?
SEU JOSÉ Evoluir não é esquecer quem você é! Você está vendendo a nossa história por uma cadeira em um escritório de vidro!
TIAGO Eu estou garantindo que os seus netos não passem a fome que você passou! Eu construí algo que você nunca teve capacidade de ver: um futuro!
(Uma passageira observa, constrangida, e se afasta.)
ATO II: O RETORNO AO PASSADO
(Corte para a casa da família, horas depois. Mara, a mãe, observa os dois entrarem, a tensão é insuportável.)
MARA (Com voz calma, mas autoritária) Chega! Vocês dois estão destruindo os últimos anos que temos juntos.
TIAGO Ele começou, mãe! Ele acha que pode me envergonhar em público!
SEU JOSÉ A sua vergonha é a sua própria imagem no espelho, Tiago. Você tem medo de que alguém descubra que o grande executivo é filho de um trabalhador braçal.
TIAGO (Caminhando pela sala, gesticulando) Não é vergonha, é estratégia. Para chegar onde eu cheguei, eu tive que deixar o Tiago do interior para trás.

MARA (Sentando-se, coloca uma caixa de madeira antiga sobre a mesa) Vocês querem saber o custo real desse sucesso? Tiago, você acha que o dinheiro para a sua faculdade veio de onde? Você acha que a empresa onde você começou tinha aquele capital por quê?
(Tiago para de andar. Ele olha para a caixa, hesitante.)
TIAGO Do que você está falando, mãe?
SEU JOSÉ (Com a voz baixa) Aquele terreno que eu “limpei com as próprias mãos”? Eu não limpei só a terra, filho. Eu vendi a nossa dignidade para um investidor duvidoso para financiar o seu primeiro grande contrato.
ATO III: A REDENÇÃO
(O silêncio na sala é ensurdecedor. Tiago sente o chão ceder sob seus pés.)
TIAGO (A voz falhando) Você… você fez o quê?
SEU JOSÉ Eu fiz o que você se recusa a fazer: sacrifiquei o que eu era pelo que eu queria que você fosse. O seu “sucesso” está sobre o lombo de quem você despreza.
TIAGO (Caindo em uma cadeira, o terno parece pesado demais) Eu passei anos lutando para provar que eu não precisava de ninguém. E, o tempo todo, você estava pagando o preço.
MARA Orgulho é uma raiz perigosa, Tiago. Ela nos sustenta, mas também pode nos sufocar.
(Tiago olha para as mãos do pai — mãos calejadas, marcadas pelo trabalho. Ele finalmente parece enxergar, não o homem simples, mas o homem que deu a vida para que ele pudesse existir.)
TIAGO (Lágrimas começando a escorrer) Eu agi como um estranho. Eu esqueci… eu esqueci de quem eu sou.
SEU JOSÉ (Colocando a mão no ombro do filho, com firmeza) Nunca é tarde para pedir perdão, Tiago. Mas agora, você vai ter que limpar a sua própria terra.
(Tiago olha para a janela, observando a rua movimentada lá fora. Ele se levanta, tira o paletó e o coloca sobre a mesa.)
TIAGO Amanhã, eu vou pedir o afastamento da presidência. Vamos fazer isso do jeito certo, pai. Com o nosso nome limpo.

(Seu José sorri, um sorriso cansado, mas orgulhoso. Eles se abraçam. O orgulho, enfim, dá lugar ao respeito.)
